As transformações recentes no transporte de cargas mostram que a competitividade das empresas depende cada vez menos de encontrar o menor preço de frete e mais de estruturar operações logísticas inteligentes, resilientes e eficientes.
Em um ambiente marcado por novas regras, maior transparência na formação de custos e pressão por produtividade, repensar a estratégia logística deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade.
Um dos principais reflexos desse novo cenário é a atualização periódica da tabela de pisos mínimos do transporte rodoviário de cargas. Em julho de 2025, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) promoveu um reajuste entre 0,82% e 3,55%, considerando a variação do IPCA e do preço do diesel S10.
Já em 2026, a Medida Provisória nº 1.343 ampliou a obrigatoriedade do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT) e fortaleceu os mecanismos de fiscalização do piso mínimo. Com isso, operações enquadradas na política de frete só podem ser registradas quando os valores respeitam os limites estabelecidos pela legislação..
Embora essas mudanças regulatórias impactem diretamente o transporte rodoviário, seu principal efeito vai além do reajuste de tarifas. Elas reforçam a importância de avaliar o custo logístico de maneira ampla, considerando fatores como confiabilidade, produtividade, disponibilidade de capacidade, segurança e previsibilidade operacional.
Nesse contexto, a pergunta deixa de ser “qual é o frete mais barato?” e passa a ser “qual modelo logístico oferece maior eficiência para o meu negócio?”.

Cabotagem e multimodalidade ganham espaço na nova logística
O transporte rodoviário continuará sendo indispensável para a economia brasileira. Sua flexibilidade permite conectar centros produtivos, realizar coletas e entregas e atender regiões onde outros modais não chegam. No entanto, em um país de dimensões continentais, depender exclusivamente das rodovias pode limitar ganhos de eficiência, principalmente em trajetos de longa distância.
É justamente nesse ponto que a cabotagem ganha protagonismo. Ao utilizar a costa brasileira para movimentar cargas entre portos nacionais, esse modal complementa o transporte rodoviário, formando operações multimodais mais equilibradas. Enquanto os caminhões permanecem essenciais nas etapas inicial e final da distribuição, a navegação absorve os percursos mais longos, reduzindo a exposição às oscilações do diesel, diminuindo riscos de acidentes, furtos e avarias e proporcionando maior estabilidade nos prazos de entrega.
Essa integração entre modais tem levado muitas empresas a revisarem decisões tomadas anos atrás, quando comparações baseadas apenas no valor do frete faziam a cabotagem parecer menos competitiva. Hoje, com um ambiente regulatório diferente, custos mais transparentes e maior maturidade do setor, a análise precisa considerar o custo total da operação e os benefícios gerados ao longo de toda a cadeia logística.
Nesse processo de evolução, empresas especializadas em cabotagem vêm desempenhando papel relevante na ampliação das alternativas disponíveis ao mercado. A Norcoast, por exemplo, tem contribuído para fortalecer esse modal no Brasil.
A adoção da multimodalidade, entretanto, exige mais do que a contratação de um novo serviço. É necessário revisar processos internos, adequar o planejamento de estoques, sincronizar a produção, organizar embarques e alinhar o atendimento aos clientes. O sucesso dessa estratégia depende da integração entre os diferentes modais e da capacidade das empresas de adaptar sua operação às características de cada um deles.
Outro aspecto que ganha relevância é a produtividade logística. Soluções como melhor aproveitamento de ativos, reutilização de contêineres, planejamento colaborativo e redução de deslocamentos vazios ajudam a otimizar recursos e reduzir custos sem comprometer a qualidade do transporte. A competitividade deixa de estar concentrada apenas na negociação de tarifas e passa a ser construída por meio da inteligência operacional.
As recentes mudanças regulatórias devem ser encaradas como um incentivo para revisar modelos logísticos desenvolvidos em um contexto diferente do atual. Em vez de reagir apenas ao aumento de custos, empresas podem aproveitar esse momento para redesenhar suas cadeias de suprimentos e explorar soluções mais eficientes.
Não existe um modal capaz de atender sozinho todas as necessidades do mercado. O diferencial competitivo está na combinação adequada entre rodoviário, cabotagem e outros modais, de acordo com o perfil da carga, da operação e dos objetivos estratégicos de cada empresa. Organizações que adotarem essa visão estarão mais preparadas para enfrentar oscilações do mercado, reduzir riscos e construir uma logística mais sustentável, resiliente e eficiente.
Mais do que uma simples atualização na tabela de fretes, o cenário atual representa uma oportunidade para repensar a logística sob uma perspectiva de longo prazo.
Por Márcio Salmi